Arte nos jardins, Jardins no Museu
Berlin Britzenale e Delcy Morelos no Hamburguer Bahnhof
Este é o décimo texto que escrevo aqui. Comecei empenhada em registrar alguns pensamentos que respondessem a quem servem as narrativas apocalípticas. De forma direta ou indireta, estes escritos têm confrontado essa pergunta, e ganham um contorno de diário de pesquisa, que tenho gostado.
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Madre, Delcy Morelos, Hamburguer Bahnhof, Berlim. Curadoria de Catherine Nichols.
É um barranco? Perguntou uma amiga (debochada) ao ver uma foto de um monte de terra preta num dos salões do Hamburguer Bahnhof. Um barranco, num museu, pode fazer mais por nós do que aparenta. Eu vinha positivamente afetada pela ideia de arte no jardim quando encontrei com Madre, escultura da artista Delcy Morelos, que me pegou pelo cheiro de terra molhada. Logo descobri que a terra é misturada com água, madeira, metal, juta, palha, canela, sementes de chia, trigo sarraceno, tabaco, cravo e mel.
A preparação para esse encontro foi a Berlin Britzenale (curadoria de Christof Zwiener, este ano com Vincent Schier), uma exposição de um fim de semana (11 a 13 de julho), que acontece a cada dois anos nos Schrebergärten – jardins comunitários – de Britz, bairro aonde o metrô ainda não chega, ao sul de Neukölln. Ao contrário da maioria, eu tenho uma certa implicância com os Schrebergärten, herança da DDR. O princípio é admirável: cada um deve ter uma parcela de terra verde perto de casa para se aliviar da vida entre quatro paredes de concreto, separando-nos de qualquer mosquito ou outro ser vivo que não seja humano para além dos pets, monsteras, espadas de São Jorge e afins. O projeto moderno de separar natureza e cultura vingou bem, e os Schrebergärten são uma das válvulas de escape estratégicas para uma reaproximação. Por terem surgido no socialismo, ninguém tem propriedade sobre os jardins, apenas direito de uso, uma filosofia parecida com a legislação em terra quilombola. Hoje o processo anda mais capitalizado, é preciso pagar uma “luva” pela concessão, mas ainda assim é uma opção barata de ter uma “casa no campo”. Com a gentrificação da cidade, tem até gente morando nas casas nos jardins, apesar de não ter aquecimento nem energia elétrica durante o inverno. Um jardim próprio e acessível é mesmo maravilhoso; a minha implicância está com a ordem alemã. Ter um Schrebergarten significa ser parte de uma associação com suas regras de convivência; algumas tão rígidas que controlam até mesmo a altura em que as plantas devem ser cortadas; a grama deve estar sempre na régua, o cultivo é obrigatório etc. Só de pensar nessas formalidades e compromissos para além já me dá uma paúra, mas respeito quem encara.
Visitando as artes mimetizadas com as plantas que sorriam felizes depois de uma senhora chuva de verão em Britz, deu até para esquecer das burocracias. Um ruibardo de caule tão rosa como nunca visto, hortênsias desfilando suas pétalas rosas e violetas e árvores lotadas de maçãs fresquinhas (contamos, só em uma árvore, mais de cem) são irresistíveis. Aliados à caça ao tesouro - onde está a arte?, não há bienal de Veneza que preencha mais os corações sensíveis.
Folke Köbberling, Wolldach, 2025. Britzenale.
A primeira instalação, Wolldach, de Folke Köbberling, era bem simples e de título auto-explicativo: a artista cobriu o telhado da casa do jardim de lã crua de ovelhas. A impressão foi de encontrar a casa de João e Maria na floresta, ou Hänsel und Gretel, como se diz na terra dos Irmãos Grimm. Para além da magia, a lã tem a capacidade de limpar a atmosfera: suas fibras atraem poluentes e conseguem filtrar as partículas do ar. Sobre o telhado, o material tem efeito isolante, ou seja, mantém o calor ou o frio e pode servir de proteção contra incêndio.
Entre os corredores estreitos que dividem um lote do outro, encontrávamos conhecidos que nos levavam pela mão a desvendar os tesouros no mapa. Sentamos embaixo de uma árvore no jardim sonoro Herdtz, de Niko de Paula Lefort, que distribuiu um microfone em cada uma das quatro composteiras coletivas dos jardins e criou quatro estações de rádios piratas na banda FM. Os microfones captavam as vibrações das bactérias e afins, um som bem dinâmico, transmitido ao vivo no jardim do Niko.
Herdtz [um título que mistura Herdz, frequência de rádio em alemão, com Hertz, coração] Transmissão no jardim do Niko de Paula Lefort.
Esquema de captação do som feito por Niko com painel solar numa das composteiras, no jardim ocupado pela artista Andrea Acosta.
Phantom Limbs, Andrea Acosta, 2025.
Atravessando uma porta pintada de verde e vermelho, ganhamos prosecco com licor de “hollunder” (das flores de sabugueiro) servido pela dona do jardim, ocupado por David Reiber Otálora e sua folha de cerejeira gigante, feita de chapa de metal. Em seguida, passamos pelos seres híbridos feitos por Andrea Acosta a partir de pedaços de galhos cortados e misturados a correntes de metal, que protegiam a entrada até chegar ao último jardim, onde uma escultura de madeira com acabamento de cêra de abelha nos recebia. Ellen Martine Heuser gravou em baixo relevo um poema seu, uma ode ou monumento a um buraco causado no solo pelo derretimento de um bloco de gelo da era glacial. A depressão gerou o lago ao lado da reserva florestal dos jardins.
Ellen Martine Heuser, Verordnung zum Schutz eines Toteislochs [Decreto para a proteção de um buraco de gelo morto], 2025
Die erste Skulptur war ein Eisblock.
Ihre Negativform ist ein Naturdenkmal.
Die Skulptur lebt weiter. Wirst auch du verschmelzen?
Murmele eine Melodie für das Toteisloch.
Arrisco aqui uma tradução:
A primeira escultura foi um bloco de gelo.
Sua forma negativa era um monumento da natureza.
A escultura ainda vive. Também você vai derreter?
Entone uma melodia para o buraco de gelo morto.
Os caminhos entre o jardim e arte não são novidade, Burle Marx e Inhotim são exemplos dessa aproximação gloriosa, mas a impressão é de que quanto mais nervoso fica o capital, mais próximo do verde projetamos nosso imaginário. Talvez por isso que um monumento a um buraco formado por um bloco de gelo derretido ou um barranco no museu, comovam meus, nossos, sentidos.
A artista Delcy Morelos, em sua fala no Hamburguer Bahnhof, lembrou que a terra preta que ela ali emula, é a mais fértil das terras e que ela é uma extensão de nós; respeitá-la é respeitar a nós mesmos. Um barranco museificado, que não pode ser tocado a não ser com os olhos e com o olfato, é indício de que é preciso sensibilizar as pessoas até para os barrancos, para que sejam protegidos da fúria especulativa que já pode querer se livrar dele para construir um estacionamento. O barranco, no museu, é também como aquela flor que nasce no asfalto, se reaproriando do espaço que sempre foi dela.
Detalhe de Madre, Delcy Morelos, Hamburguer Bahnhof, Berlim.
> Pra quem está na Alemanha, até 14.09 tá rolando a Bienal do Werkleitz, Planetarische Bauern, com mais de 40 artistas de toda parte, sobre direito à terra, reforma agrária e outras revoluções no campo. Trabalhos comissionados que unem ecologia e luta de classes, como gostava Chico Mendes. Em Halle, pertinho de Berlim.









